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Entrevista a José Caetano - Diretor Desportivo

Diretor desportivo fala dos seus sete anos vividos no clube com muita intensidade.

José Caetano exerceu o cargo de diretor desportivo no Juventude Vidigalense durante sete anos e deixou a sua marca no clube. Estivemos à conversa com ele onde partilhou experiências e opiniões não só relatviamente ao clube mas também à modalidade em si. 

 

- Ao longo dos anos tens estado intimamente ligado às equipas do Juventude Vidigalense e tens acompanhado a sua evolução. A que achas que se deve o crescimento do clube?

Na minha opinião o crescimento do clube deveu-se especialmente a uma forte aposta na formação que existiu desde sempre e faz parte do ADN do clube, levando a que se vá conseguindo renovar ano após ano na medida em que tem conseguido sempre manter entre 200 a 300 atletas federados entre todos os escalões, de benjamins a seniores, em cada época desportiva. Esse número sustentado numa organização dinâmica e rigorosa, com funcionários e treinadores de muita qualidade, vai trazendo sempre massa crítica renovada que substitui a que se vai perdendo à medida que muitos jovens chegam ao ensino superior e ao mercado de trabalho e já não conseguem conciliar as suas responsabilidades académicas e profissionais com a prática desportiva. Haverá outras razões incluindo os excelentes resultados desportivos(colectivos e individuais) que vai conseguindo ano após ano e a organização de provas em parceria com a Associação Europeia e que dão prestigio e dimensão nacional e internacional ao clube até pela divulgação que vai sendo feita na comunidade do atletismo e na comunicação social mas a base será a capacidade de mobilização de jovens atletas renovada anualmente de há mais de uma década e que já nos trouxe a alegria de vermos jovens captados e formados por nós atingirem as selecções nacionais de vários escalões.

 

- Muitas pessoas que passam pelo Juventude Vidigalense, falam de um clube diferente. O que consideras especial no clube?

O que considero especial no clube é a sua mística muito própria que advém precisamente de grande parte dos atletas se conhecerem enquanto praticantes no clube desde os escalões de formação e com isso criarem laços de amizade que depois se traduzem num maior apoio dos que estão na bancada aos que correm, saltam e lançam na pista. Isso faz com que se considerem quase como família e traduz-se numa maior união e faz com que todos puxem uns pelos outros. Também se procurou criar esse espírito nos atletas que não tendo sido formados aqui fazem parte das equipas, especialmente do escalão sénior, uma vez que de há muito se pode dizer que o Juventude Vidigalense é um clube de âmbito nacional e como tal recruta atletas de norte a sul do país e muitas vezes mesmo do estrangeiro, especialmente descendentes de portugueses, quase sempre com excelentes resultados. Se a tudo isso somarmos o facto de sermos um clube localizado na província a disputar e a ganhar campeonatos nacionais (especialmente nos escalões de formação) aos grandes de Lisboa (Benfica e Sporting) com o que isso traz de garra e motivação acrescidas aos atletas, podemos perceber melhor a nossa mística especial.

 

- Quais as melhores recordações enquanto diretor desportivo?

Felizmente tenho muitas mas há uma que é especial pelo impacto que teve e que foi logo no primeiro ano em que estava no clube, por isso terá sido tão duradoura. Nesse ano, 2011, a equipa masculina tentava pela primeira vez na sua história atingir o pódio nos campeonatos nacionais de seniores, quer em pista coberta quer ao ar livre, e nessa altura tínhamos como grande rival o Girassol, clube da região de Coimbra, que lutava pelo mesmo objectivo que nós. Ainda por cima o Futebol Clube do Porto tinha encerrado a sua secção de atletismo no ano anterior e por isso mesmo havia um lugar em aberto a ser disputado pelos clubes mais em condições de lá chegar. A competição foi disputada e renhida, a luta ponto a ponto, as emoções ao rubro com a expectativa de fazer história para o clube e para a cidade, enfim tudo contribuiu para um fim-de-semana muito intenso, com todos a vibrar nas bancadas em Pombal, culminando na concretização do objectivo tão desejado e que comemorámos exuberantemente. Depois repetimos o feito ao ar livre com uma intensidade semelhante e a partir daí e durante a última década fomos cimentando a nossa posição como a terceira potência desportiva no atletismo português ao lado do Benfica e do Sporting, conquistando sucessivos pódios em todos os escalões do atletismo português, masculino e feminino e em alguns casos conseguindo ser mesmo campeões nacionais. Um ano mais tarde começámos a construir uma história muito semelhante no que respeita à equipa sénior feminina que também se tem mantido de então para cá com muito esforço de todos porque se não é fácil chegar ao objectivo uma vez, mais difícil é manter o lugar alcançado com tanto suor ao longo de uma década, em pista coberta e ao ar livre. Para culminar todo este processo e atingir o cume da minha satisfação como director desportivo ficaram os dois segundos lugares que alcançámos na pista coberta em Pombal à frente do Sporting em masculinos e do Benfica em femininos no ano de 2015. Houve muitos mais motivos de felicidade e orgulho mas estes terão sido os mais especiais para mim.

 

- Na tua opinião, o que podem os clubes em Portugal mudar para melhorar o contexto da modalidade?

Na minha opinião o maior contributo que os clubes podem dar para melhorar o atletismo em Portugal será apostarem na formação, dentro do contexto próprio de cada um. Em Leiria temos a possibilidade de apostar muito na juventude porque temos infra-estruturas e condições muito favoráveis para a prática da modalidade o que não acontece noutras regiões e cidades mas também porque o clube é extremamente profissional e bem organizado, sempre foi e isso é algo que nos é reconhecido não só pelos outros clubes como pela própria Federação. Tudo somado leva a que consigamos consistentemente captar e formar atletas que ao longo dos anos têm representado o nosso país em competições internacionais e penso que será por aí que a modalidade pode evoluir ao nível de impacto, popularidade e resultados desportivos. Não esquecer que o atletismo é a modalidade principal dos Jogos Olímpicos e a única que já deu medalhas de ouro a Portugal, neste caso 4, e que para haver novos ídolos e referências é preciso renovação de gerações.

 

- Como conseguias conciliar a tua vida profissional com a atividade diretiva do clube?

Nem sempre é fácil mas como o fazia com total entrega e paixão ia conseguindo conciliar com maior ou menor dificuldade. Vivi momentos muito bonitos e intensos no 7 anos em que fui director desportivo do clube, fiz muitas amizades, não só dentro do clube e na cidade mas em todo o país e em todos os agentes da modalidade, atletas, treinadores, juízes, outros dirigentes, gente do mundo do atletismo que fim-de-semana após fim-de-semana se vai encontrando um pouco por todo o lado de norte a sul, seja em provas de pista, crosses ou provas de estrada. Em todas estive com muito orgulho e prazer e se por vezes era muito duro abdicar dos fins-de-semana para acompanhar as equipas, de benjamins a veteranos, guardo com muito carinho e porque não dizê-lo alguma saudade os momentos bonitos, os sorrisos na cara dos pequeninos que ganhavam uma medalha, a boa disposição no autocarro à ida e ao regresso, a alegria contagiante das muitas vitórias que íamos obtendo, a intensidade dos fins-de-semana mais longos em que saíamos de Leiria Sábado de manhã e só chegávamos no Domingo à noite, quase sempre com troféus para acrescentar aos expostos na sala da Direcção. Tenho muitas e boas recordações e por isso não me queixo do tempo que o atletismo me “roubou”, as madrugadas de Domingo, os almoços em família, o tempo para outras actividade que também me apaixonam, tudo isso esteve em segundo lugar por algum tempo mas sem arrependimentos. Entreguei-me de corpo e alma, procurei o que era melhor para o clube dentro das minhas possibilidades, tentei ajudar os atletas no que podia, foram tempos intensos e bem vividos que agora revivo graças a esta entrevista. Obrigado também por isso.

 

Um agradecimento ao José pela disponibilidade e partilha!



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